As palavras na precisão de um bisturi


Coisas boas me pegaram musicalmente nos últimos dias e me deu vontade de começar a compartilhar aqui. Eu sei, quase ninguém mais lê textão na internet, mas mesmo assim me atrevo. Se é pra reinaugurar esse blog abandonado, vamo de textão mesmo, e sobre música!

Então lá vai.


Momentos de fragilidade, tristeza, medo intenso, lutos dos mais variados tipos e dores diversas já renderam grandes obras artísticas. Quando se fala dos poderes transformadores da arte, esse é um que transborda.


Na semana passada, um disco com esse transbordamento me pegou. Eu ouvi, ouvi, ouvi, e ‘tava até agora organizando as ideias pra falar sobre ele: o recém lançado "Tireóide", do Renan Inquérito.


Renan passou um período tenso. No final de 2024, descobriu um câncer na glândula que dá nome ao álbum, passou por cirurgia e tratamento, e venceu. O disco é como um diário poético em que ele relata suas experiências em cada fase desse processo e transforma as dores externas e internas em arte. A poesia, como ele mesmo diz, fez parte de sua cura.


Quando vi o anúncio do disco, logo lembrei que em outubro do ano passado assisti ao show do Renan no teatro do Sesi Birigui, com repertório do disco anterior, o "Abrakbeça", de rap para crianças. Bonito, colorido, vibrante e lúdico, com todos os artistas ali comprometidos e inteiros. As crianças e os adultos presentes curtiram muito. Eu mesma, na plateia, não sabia se era criança ou adulta.


E liderando tudo, um cara muito vivo, no sentido mais intenso que a palavra VIVO pode ter.


Talvez, como eu, ninguém (ou raríssimas pessoas) do público sabia pelo que ele tinha passado uns meses antes. Fiquei matutando sobre isso... Ele acabava de processar aquele turbilhão de coisas que cruzaram sua história, e seguia adiante, abraçado pelo palco e pela música. 


"Tireóide" tem um clima bem diferente de "Abrakbeça" - as cores são outras. Alguns momentos têm o tom metálico do bisturi, outros algo de um turvo de janelas fechadas… e então o transparente do corpo de uma caneta certeira e confiante surge e dá passagem pra luz. O disco começa denso e termina esperançoso, vitorioso. 


As palavras são diretas e bem pessoais. As rimas criativas, os jogos de palavras, as marcas das suas letras, as sonoridades, as batidas e refrãos notáveis... tá tudo ali. Mas também há um sentimento diferente: com total consciência sobre a finitude da matéria (o final de todos nós), reflete sobre tudo o que passou e quer viver muito mais tempo fazendo o que sabe e determinado (como sempre e agora talvez até mais) a lutar pelo seu corre. 


Renan fala do câncer sem medo de falar sobre ele (há quem tenha receio até de pronunciar o nome da doença). O medo diante da situação toda, também relatado nas músicas, não imobilizou sua música e sua escrita.


O projeto é bonito, sobretudo, na forma como ele relata esse processo de enfrentamento de cada fase. A poesia ali é de urgência e narra uma travessia (palavra que ele usou no primeiro vídeo de divulgação do álbum) de susto, dores e, por fim, de glória. Renan tá bem, curado, e logo começam os shows de lançamento. Esse também quero ver!


"Tireóide" pode não ter as mesmas cores de "Abrakbeça", mas ambos carregam em comum o olhar diferente pra vida. Se um contempla o olhar admirado de quem tá começando a caminhada, o outro traz um sentimento de recomeço. Os dois se conectam por olhar o mundo com olhos de novidade. 


“É preciso transver o mundo” - quem disse foi Manoel de Barros. 





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