Estoy acá (re copada con este disco)
Ainda na onda dos discos feitos após ou durante períodos extremos da vida... "Taracá", do uruguaio Jorge Drexler, lançado agora em março, é desses.
Eu tinha lido o nome Jorge Drexler no encarte do disco da Maria Rita, há mais de 10 anos - ela gravou "Mal Intento", da autoria dele, no disco "Segundo" (2005). Naquele mesmo ano ele venceu a categoria de Melhor Canção Original do Oscar, com "Al Otro Lado Del Rio", feita pro filme "Diários de Motocicleta" (dirigido pelo Walter Salles). O tempo passou, na época não me lembro de ter ido atrás pra ouvir mais alguma coisa da discografia dele.
Esses dias vi que a Roberta Martinelli postou algo (vai rolar entrevista com ele no Som a Pino em breve) e no último domingo o nome dele me veio na cabeça. Finalmente resolvi escutar. Melhor coisa que fiz por mim! Dai o play por curiosidade e passei o dia quase inteirinho ouvindo. Me pegou muito!
O álbum foi feito após o falecimento do pai do Drexler e foi influenciado por essa passagem; é inspirado pela ancestralidade, pela elaboração do luto, e honra e celebra a vida. Ele não fala diretamente sobre a perda do pai, mas ressignifica seu sentimento e o transforma em processo artístico. A Roberta escreveu uma coisa que é bem verdade: o disco fisga a gente já de primeira e a cada vez que a gente escuta, ele fica mais profundo.
As letras falam da vida de forma reflexiva, mas sem peso. Tem ali uma delicadeza e tem uma força imensa. E ainda o ritmo gostoso do candombe (que vem da manifestação cultural e musical uruguaia de origem africana, reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela Unesco).
O atual e as raízes convivem de um jeito muito bonito. O Drexler traz questões atualíssimas, reflete sobre a forma como nos comunicamos, o que fazemos com nosso tempo, fala das relações e conexões humanas; traz o sentimento de pertencimento à sua origem, sem deixar de estabelecer pontes, dialogar com diferentes culturas, territórios e tempos.
Além das tradições trazidas pela presença do candombe e também da murga (outra tradição popular presente em países de origem espanhola, representada pela participação do coletivo Falta y Resto), ele ainda outros colaboradores no disco, de diferentes gerações e estilos: a rapper porto-riquenha Young Miko, o violonista Julio Cobbeli (mestre do violão uruguiaio, difusor dos ritmos tradicionais do Rio da Prata), a cantora de flamenco Ángeles Toledano, a pianista e cantora catalã Meritxell Neddermann, e o cantor Américo Young (conhecido pelo som dançante da música tropical uruguaia). E os músicos da Rueda de Candombe, grupo atual que surgiu informalmente e se tornou muito importante na divulgação da expressão cultural uruguaia.
Além de todas essas belezas, tem uma que toca o coração do brasileiro mais de perto. Aproveitando a ótima relação do cantautor com a música brasileira e a conexão do camdombe com o samba pelas raízes africanas, ele ainda traz sua versão em castelhano para "O que é, o que é?, do Gonzaguinha. Escutem de coração aberto.
Sabe aqueles discos que pegam a gente mesmo, que deixam a gente até emocionada quando escuta? Comigo foi assim.
Jorge Drexler vem ao Brasil em maio e se apresentará em São Paulo, no Espaço Unimed. Eu quero muito ir. Terei verbas? Não sei. Espero que sim!
Ah, gente! Assistam isso aqui, se possível com um som decente e sem ser na tela do celular. É o showcase gravado em Montevidéu. É de uma alegria e de uma entrega absurdas:
P.S. - Esqueci de comentar que o nome do disco vem de duas coisas: da fusão das palavras "estar acá" (estar aqui) e também uma onomatopeia relacionada ao ritmo do tambor do candombe.



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